Cuidado com ela

“Cuidado com ela”.

Era o que meus colegas de banda diziam pro nosso novo guitarrista, meu atual companheiro, há oito anos atrás.

Eu era uma mulher de 27 anos, livre, independente, sexualmente ativa, recém descobrindo a vida, depois de anos castrada pela religião e um casamento que me anulava.

Parece que ser “esse tipo” de mulher era perigoso.

Se não bastasse isso tudo, claro e exposto pra quem quisesse ver, ainda tinha o meu transtorno. Vivia uma fase maníaca, intensa e sem muitas travas. Pra algumas pessoas, uma curiosidade; pra outras, algo admirável e desejável; mas para a maioria, algo que merecia reprovação.

Hoje reencontrei um amigo que me conheceu logo após essa fase. Já me conheceu numa relação estável com meu companheiro. Num momento em que tinha escolhido abrir mão do meu estilo de vida de solteira pra viver essa relação. E por conta da banda e outras questões, também vivia uma vida mais sossegada, sem “rolês”, álcool, e baseada em princípios religiosos. Já se passaram seis anos desde que nossa banda acabou. Nossos objetivos mudaram, assim como nosso estilo de vida. Meu relacionamento se mantém firme, mas nosso estilo de vida já não é mais tão quadradinho como se espera de pessoas casadas com mais de trinta anos.

São 06:29 da manhã, e refletindo sobre nossas conversas, risadas e lembranças dessa noite, essa frase “cuidado com ela”, está me martelando.

Como se já não bastasse a cobrança social para caber na “caixinha”, no trabalho, na família, na vida, o modo de se vestir, se portar e falar, ainda precisamos ser aprovados pelos próprios amigos. Ser honesta, dedicada e amorosa não é suficiente. É preciso ter cuidado com quem sai das normas.

Quem precisamos ser pra estar tudo bem? Qual é quantidade de alegria ou tristeza que podemos manifestar pra sermos aceitos? Quanto podemos expressar do que se passa em nossa mente? Que nível de normalidade precisamos manter pra que as pessoas não precisem “tomar cuidado” com a gente?

Se eu tentar pontuar quais eram as questões que esses amigos queriam dizer quando avisaram pra tomar cuidado comigo, muita coisa vem à minha mente. Coisas inclusive que batem de frente com o caráter duvidoso deles. Mas isso não vem ao caso.

A reflexão que faço agora é de tudo o que vivi e sobrevivi nos últimos oito anos. Tudo o que fiz e aprendi, todas as besteiras e erros que cometi, os acertos que consegui, os fracassos e as vitórias, os altos e baixos extremos, o amadurecimento e quem me tornei. Sei que ainda tem muito chão pela frente – e o fato de dizer isso já é um sinal de que quero continuar esse processo, que é a vida. Ainda tenho questionamentos a fazer, desconstruções pra viver e desconfianças a gerar. Pretendo levantar suspeitas e ainda ser motivo que digam “cuidado com ela”.

Cuidado comigo, mundo. Ainda vou fazer muito barulho, quebrar muitos paradigmas e viver muitos paradoxos.

 

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Altos e baixos (muitas baixas) e catarses

Não escrevo por aqui a um tempo.

Também não tenho postado nas redes sociais.

Uma das fases reflexivas, mas também me poupando de exposição. O que é confuso, pois vivo entre altos e baixos – superexposição e defesa de causas e ideias, seguido de períodos de reclusão e silêncio. Faz parte, né?

Troquei a terapia pela análise há 8 meses, e tô gostando muito. Acho mais pesado, mais interessante e acredito que todas as linhas terapêuticas que passei me prepararam pra essa.

Nesse último ano passei por grandes mudanças, inclusive na percepção do mundo e, principalmente, de mim mesma.

Alguns trechos do que escrevi no último ano:

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(28/08/16)

Passei 2016 à base de cigarro e álcool. Ao mesmo tempo que era uma forma de sobreviver, também servia como uma forma de me destruir lentamente.

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(08/11/16)

Crise depressiva, apatia, busca religiosa, decepções, traições, busca para entender a razão em continuar viva. Porquê e pra quê. Por quem.

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(11/11/16)

Momentos constantes de sensação de estar perdendo a sanidade. Confusões mentais e dissociações. Foi bem assustador.

A insônia continua. Constante. Algumas com muita ansiedade, outras mais amenas.

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(07/02/17)

A preocupação de quem me ama é ao mesmo tempo um conforto e uma cobrança. O amor e compreensão às vezes trocam de lugar com cobrança e o uso do transtorno contra mim.

A sensação de não pertencimento é constante. E aos poucos tento entender como lidar com isso, sabendo que não é algo que vai passar.

Tive muitos insights e algumas catarses. Coisas poderosas!

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– Bem… Parece que você acabou de passar por um processo de catarse.

– É praticamente a remoção de um complexo mediante a sua transferência para o consciente!

– …

– Eu entendo… É como vomitar durante uma ressaca.

Em meio a tudo isso, vivo crises intensas de endometriose, que me causa uma dor muito forte e afeta o meu emocional. As dores física e emocional me confundem, a ponto de não conseguir distinguir em alguns momentos.

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Mas enfim, parece que algumas coisas estão mudando, de forma lenta e com qualidade. Pra quem vive de intensidades e impulsos, não é fácil lidar com as coisas mais profundas e num ritmo menor. Mas sinto que está diferente.

Cuidando da minha saúde. POR MIM.

Pra viver, e viver bem.

Isso é novo, é assustador, e é bom.

Fico mais ansiosa e afeta mente e corpo, atingindo meu sono diretamente. Mas é diferente de tudo o que já passei.

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Vou seguindo.

Às vezes querendo desistir desse blog, da page. Mas aí entendo que eu queria ler essas coisas, sem mensagens “animadinhas” de auto-ajuda (que eu não suporto), com essa pitada de existencialismo/pessimismo/sarcasmo, coisas que não encontro em blogs ou pages sobre transtornos mentais. Então, continuo, ainda tentando manter o equilíbrio entre o que pode ser compartilhado e o que é só meu.

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Identificação

“Quando são duas da manhã e se está maníaco, mesmo o centro médico da UCLA tem um certo atrativo. O hospital – geralmente um aglomerado frio de prédios desinteressantes – tornou-se para mim, naquela madrugada de outono há quase vinte anos, um foco do meu sistema nervoso perfeitamente sintonizado, em intenso estado de alerta. Com as vibrissas ardendo, as antenas empinadas, os olhos se adiantando velozes, facetados como os de uma mosca, eu absorvia tudo ao meu redor. Eu estava correndo. Não simplesmente correndo, mas correndo com velocidade e fúria, como um relâmpago a atravessar, de um lado para o outro, o estacionamento do hospital, procurando gastar uma energia ilimitada, irrequieta, maníaca. Eu corria rápido, mas lentamente enlouquecia.”
Kay Redfield Jamison, em “Mente Inquieta”

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“Era pouco mais de dez horas da noite. Tinha trabalhado o dia todo, entregando panfletos no Carrefour da Anchieta. Deveria estar cansada. Mas tinha uma disposição, uma inquietação tão descontrolada, que precisava gastar essa energia. Minha mãe tinha aquele aparelho de fazer exercícios, simulando corrida. Fiquei ali por três horas. Meu corpo não cansava, minha mente não acalmava. Três horas com uma disposição que não era mais do que um cérebro maníaco, inquieto. Já tinha dois anos que convivia com a fase maníaca, sabia que estava me perdendo.”
Eu, Agosto de 2008.

Mal comecei a ler este livro e me identifico com o primeiro parágrafo.
É um alívio perceber alguém que não fala dos seus problemas de fora, mas que viveu cada um deles, como você.

 

Explicando tudo direitinho

Já faz 16 anos que lido com as crises psíquicas. 9 anos diagnosticada com transtorno bipolar e 8 de tratamento psicoterapêutico e psiquiátrico.

Ainda tenho crises. Algumas bem pesadas.

Não paro de buscar informações a respeito, mesmo porque preciso saber se isso tudo é coisa da minha cabeça, se é “drama” ou se é real.

Pesquisei bastante essa semana, e pretendo trazer algo mais didático e explicativo neste post.

Para começar, vamos recapitular o que já foi dito até aqui.

O Transtorno de Humor Bipolar (antigamente chamado de Psicose Maníaco-Depressiva) é um transtorno que afeta o humor de algumas pessoas, de forma extrema. Enquanto pessoas saudáveis passam por alterações de humor durante a vida, quem tem o transtorno bipolar vive entre um extremo e outro de forma mais agressiva, interferindo em suas decisões, relacionamentos e estilo de vida.

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A mudança na nomenclatura traz algumas reflexões. Era chamado de “Psicose Maníaco-Depressiva”, porque além da depressão e da fase maníaca-eufórica, é comum que o paciente tenha surtos psicóticos durante as crises, por isso a psiquiatria ainda se divide entre colocar o transtorno bipolar no grupo dos psicóticos ou concluir que apenas possam acontecer esses surtos. Li recentemente sobre um estudo realizado aqui no Brasil, que busca descobrir a bipolaridade e a esquizofrenia mais cedo. Existe sim a possibilidade dessas duas doenças estarem próximas, justamento por conta dos surtos. Alguns profissionais inclusive, preferem não se referir ao transtorno bipolar como doença mental, e sim como um transtorno de humor.

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Por enquanto, vamos colocar a psicose (ou os surtos psicóticos) de lado, para falar sobre as fases depressiva e maníaca-eufórica. O termo mania significa um estado de humor alterado, no qual a pessoa fica eufórica, acelerada e irritada.

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Existem tipos de bipolaridade, e como é difícil de ser diagnosticado, só com o tempo e tratamento para saber qual tipo a pessoa se encaixa. No quadro abaixo, é possível comparar pacientes com depressão, depressão recorrente e dois tipos de transtorno bipolar – aqueles em que a depressão é mais recorrente e os que a mania-euforia é mais presente.

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Outro quadro que exemplifica melhor os sinais e sintomas dos tipos de transtorno:

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Sabemos que os neurotransmissores (como a serotonina, endorfina e dopamina) são os responsáveis pela sensação de prazer e bem-estar no cérebro, trazendo assim o equilíbrio. Quando há quantidade menor ou maior do que deveria, é quando o paciente entra em uma dessas fases.

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Comportamentos de risco na fase maníaca:

  • Abuso de álcool e drogas ilícitas

  • Descontrole nos gastos financeiros

  • Sexo sem proteção (e com muitos/as parceiros/as)

  • Perda de noção de autoproteção (passeios noturnos, riscos de assalto ou estupro etc.)

  • Sentimento de grandiosidade e super-poderes, colocando a vida em perigo

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Comportamentos de risco na fase depressiva:

  • Somatização (transformar tudo em doença)

  • Reclusão

  • Irritação aguda

  • Perda de memória e de funções cognitivas

  • Suicídio

Todo transtorno, seja qual for, tem gatilhos – acontecimentos, palavras ou lembranças, que lembram algum trauma e ativam os sintomas. Esses gatilhos acontecem como se a pessoa tomasse um tiro mesmo e pode desestruturar o paciente, independente do avanço que tenha alcançado.

Existem alguns fatores de risco que estão diretamente ligados às crises maníaca ou depressiva:

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Quanto maior o tempo de tratamento e autoconhecimento, menos complicado vai ser para o paciente lidar com esses gatilhos.

O diagnóstico do transtorno bipolar ainda é complicado. Não existem certezas e há muitos diagnósticos equivocados. Uma pessoa com transtorno bipolar pode já ter sido diagnosticada como depressiva ou como hiperativa, até que os seus sintomas sejam compreendidos corretamente.

E é preciso levar em considerações coisas importantíssimas quando se trata disso:

  1. Falar que é bipolar virou moda e piada;

  2. Muitos psiquiatras apenas receitam medicações sem ao menos uma conversa decente com o paciente. É preciso bem mais que uma única conversa para um diagnóstico desses;

  3. A indústria farmacêutica lucra absurdamente com remédios psiquiátricos, sem se importar de fato com o bem-estar;

  4. Os rótulos interferem no tratamento psíquico de qualquer paciente. Muitas vezes até pioram seu estado.

Com essas considerações, vamos falar um pouco sobre os critérios para o diagnóstico do transtorno bipolar:

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Pessoas com transtorno bipolar são geralmente muito ativas, inteligentes e boas no que fazem. O transtorno realmente impede seu avanço em todas as áreas de sua vida. Ela mesma não compreende e não tem controle do que acontece e pessoas próximas têm dificuldades em ajudar.

Projetos são abandonados pela metade, relacionamentos são destruídos, perdas e decepções são difíceis de lidar, e por muitos momentos, ela pensa que está perdendo a sanidade por completo.

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Pessoas de fora, colegas de trabalho e estudo, geralmente não entendem o que se passa. E numa sociedade em que precisamos estar dentro de um padrão pré-determinado (na qual inclusive se prescrevem remédios psiquiátricos sem necessidade), é complicado sobreviver a isso.

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Familiares, amigos e pessoas que convivem com bipolares precisam entender o que se passa, o que é o transtorno bipolar, os sintomas, diagnósticos, reações aos remédios e acompanharem todo o processo. É preciso atenção e paciência, pois uma pessoa com transtorno bipolar não consegue vencer (lidar com) a doença sozinha.

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Sim, existe tratamento para essa “bagunça toda”. Não gosto quando pessoas de fora e até psiquiatras e terapeutas dizem que dá pra ter uma vida normal. Normal? Não! Não é possível ter transtorno bipolar e ter uma vida comum. Mesmo porque é uma doença que não tem cura, e vamos lidar com altos e baixos até o fim da vida.

O que é possível é fazer o tratamento corretamente, se autoconhecer, perceber sintomas e gatilhos antes que a crise fique mais séria. Isso sim, é totalmente possível, para conseguir uma vida com momentos de alegria, prazer e qualidade.

Qualquer tratamento de doença ou transtorno na vida vai precisar de uma boa alimentação, exercícios e evitar álcool e outras drogas, portanto, nem vou citar essas coisas como parte do tratamento (meio óbvio, né?) – não que eu faça isso, mas já é outra história…

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Espero ter esclarecido algumas dúvidas para você, que como eu, sofre com o transtorno bipolar, ou para quem cuida de uma pessoa com esse problema.

Lembrando que ESSE NÃO É UM BLOG MÉDICO. É um espaço para expressar o que vivo com o transtorno.

Uma pesquisa foi realizada para fazer esse post, porque estava precisando de mais respostas (as fontes serão colocadas abaixo).

Os últimos meses estão me desabando e sinto que algo me empurra para baixo e não me deixa levantar. Mas ao refazer esse tipo de pesquisa, de certa forma fiquei aliviada, e vi o quanto sou forte, por passar por tudo isso e ainda estar aqui, lutando.

Então, vamo que vamo!

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Fontes:

“Transtorno Afetivo Bipolar A DOENÇA DO HUMOR EVELYN VIEIRA MIRANDA – PSICÓLOGA Coord. Núcleo de Psicologia -Equipe Saúde Plena Psicóloga Clínica Psicóloga.”

ABRATA – Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtorno Afetivo ABRATA – link

 

Pânico no metrô – experiência de 24/02/2011

Em 2011 fiquei uns meses sem conseguir andar de metrô e depois de novo, em 2012. Aquela loucura lotada de gente, que vive parando e acabando a energia, me sufocavam e acionavam minha claustrofobia.

Quando conseguia sair de casa, fazia tudo de ônibus, o que demandava no mínimo uma hora a mais de trajeto.

Segue a experiência, que escrevi logo após o ocorrido:

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‘Terça-feira, 10h da manhã. Estava no metrô, sentada (coisa difícil de acontecer na linha vermelha, mesmo nesse horário mais tranquilo), pensando em como o dia ia ser bom.

De repente, o trem para. O maquinista avisa que o metrô está desenergizado e que não tem previsão de voltar a funcionar.

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“Tudo bem”, pensei, “to sentadinha, de boa, vou até cochilar”. Quem dera! Comecei a pensar que estava presa, e que se quisesse sair, não teria como. Tentava me acalmar, pensando que estava tudo bem, mas quanto mais eu pensava que estava bem, mais eu sabia que iria passar mal.

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Ansiedade

Meu coração começou a acelerar, minha respiração foi mudando. Peguei um texto da bolsa pra ler.

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Medo

Eu lia, mas não conseguia prestar atenção. Comecei a tremer. Peguei a garrafinha de água na bolsa, tremendo muito, e tomei um pouco d’água.

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Desespero

Os batimentos cardíacos aumentavam, eu fui ficando mais ofegante e comecei a me desesperar, porque se eu piorasse, não teria pra onde ir.

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Pânico

Já com falta de ar, comecei a pensar pra quem eu pediria ajuda, no caso de desmaiar. Queria gritar, queria sair correndo, ia perder os sentidos.

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A força voltou. O trem voltou a andar.

Não foram nem 3 minutos. Pareceu uma eternidade.

Medo

O pânico foi passando, e enquanto o trem andava, tive medo de parar dele parar de novo e, dessa vez, eu não aguentar mais.

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Tristeza

Desci do trem quando parou na estação seguinte. Precisava falar com alguém. Liguei pra um amigo e comecei a chorar.

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Alívio

Apesar de ainda estar atordoada, fui sentindo um alívio por não estar mais presa e sem saída. Continuei tremendo e ofegante por um tempo.

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Frustração

Depois que tudo passou, fiquei mal, frustrada. Depois de tudo o que conquistei, não esperava passar por uma situação dessas novamente.

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Esperança

Venci as compulsões, venci a depressão. Pensei estar em outro nível do meu emocional.

Mas hoje me dei conta que a minha luta não acabou.

Talvez nunca acabe.

Vou continuar me tratando, continuar tentando achar as causas e os porquês de tanto medo.

E vou vencer mais essa.

Não vou pegar o metrô por um tempo, mas logo passa e… a vida continua.

Vou fazer dela uma coisa boa.

A vida vai ser bela.’

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A primeira fase maníaca da minha vida

Era o segundo semestre de 2006. Mas antes, preciso contar a trajetória até aqui:

Já tinha tido crises de ansiedade e pânico em 2000 (mas não sabia que era isso, e fui a todos os médicos que pude, para tentar entender o porque de ficar desmaiando, do nada). Em 2002, meu pai tomou um tiro, numa tentativa de assalto e ficou paraplégico. No final desse ano, tive uma diarreia que durou 4 meses, e em seguida, anorexia (que também não sabia o que era. Na minha cabeça, eu estava com um tumor maligno no estômago, e ia morrer, e meu estômago só me permitia comer bolacha de água e sal e mingau de fubá. Pensava que eram as únicas coisas que eu podia comer, e isso fazia todo sentido para mim). No começo de 2003, tive a primeira grande crise de pânico. Estava estudando, em casa, e de repente, o ar não vinha, tudo começou a girar, e minha visão ficou embaçada. Aos poucos, não conseguia mais sair sozinha de casa, e só conseguia ir à faculdade, porque meu irmão também estudava, e eu ia com ele. A sorte é que nessa época, eu tive uma matéria chamada “Psicologia da Religião”, e pude conversar com a professora, que era psicóloga. Ela me diagnosticou e me encaminhou para uma colega. Foi a primeira vez que fiz terapia. Entendi que estava com depressão, procurei atendimento psiquiátrico no Hospital das Clínicas, que me receitou fluoxetina. Melhorei bastante, mas esse remédio ainda me deixava sem apetite. Emagreci muito nessa época. Mudaram minha medicação, continuei a terapia por um tempo, e melhorei. Me dei alta (não façam isso).

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Me casei (pela primeira vez) no fim de 2003, e nessa época, era seminarista da igreja Presbiteriana. Trabalhava numa congregação em Cumbica, Guarulhos, e amava aquele trabalho. Tive sérios problemas no começo do casamento, pois me casei virgem (aos 22 anos), e a repressão religiosa era tão absurda e tão enraizada, que não conseguia me relacionar sexualmente. Pregava a submissão da mulher, o sexo só depois do casamento, e esse fato me fez repensar o sentido disso. Por discordâncias teológicas e doutrinárias, saímos da igreja, e abandonamos o curso de Teologia (o ex marido também). Fiquei bem por um tempo, procurei outra igreja, mas a instituição não funcionava mais para mim. Tentamos fundar uma ONG, entrei para um fã clube de Star Wars (!!!) e naquele momento, foi o que supriu meu comprometimento com a igreja e a religião. Não deixei de me considerar cristã, de ler a Bíblia e orar; na época, entendia que poderia ser cristã sem fazer parte da instituição. Fiquei bem por alguns anos.

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Até que chegou o ano de 2006. Como não me encaixava em nenhum trabalho formal, fiz cursos de depilação, maquiagem, manicure e pedicure, e meti as caras. Enfim, decidi voltar à faculdade (mesmo porque não poderia perder a bolsa de estudos). E quando voltei, meu irmão e minha cunhada estavam organizando um movimento estudantil, e me convidaram para participar. Foi aí que tudo se transformou.

De repente, estava feliz e realizada de novo. Estudando, trabalhando e participando da militância estudantil. Comecei a me sentir muito ansiosa, a ponto de tremer e não conseguir respirar direito. Não dormia nem comia mais. Mas me sentia tão bem, mas tão bem, que isso não incomodava tanto. Minha sexualidade começou a ficar descontrolada. Sentia desejos por todos e todas. (Imagina a cabeça de alguém que se casou virgem e mal conseguia transar com o marido, passando por isso!). Procurei uma nova psiquiatra, que me passou um ansiolítico. Não deu em nada.

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Eu falava alto e sem parar, me maquiava muito, não parava um minuto, não concluía meus pensamentos. Me elegeram como representante do curso e entrei numa briga séria institucional. Acabei sendo o bode expiatório de professores progressistas contra os conservadores. Fui de cabeça. Queria todos por perto, e quando chegava o fim de semana, em que ficava em casa, com o marido, surtava, me sentia sozinha e vazia.

Voltei à psiquiatra, que me diagnosticou com hiperatividade (acreditam?!!). Ela me passou aquele remedinho da moda, que entopem as crianças normais. Quando eu tomei, GZUIZ!, minha ansiedade aumentou, eu ouvia meu coração, falava muito mais rápido e mais alto e chegava a assustar meus colegas. Não conseguia me controlar e cantava alto, não importa onde estivesse (me chamaram a atenção no trabalho, na faculdade, porque eu nem percebia que fazia isso, e tinha necessidade de cantar). Tomei esse negócio por três dias, e liguei para a psiquiatra, dizendo que não dava. Parei com a medicação.

Os meses passaram e essa sensação de descontrole e “bem-estar” continuavam. Meu casamento já estava destruído, e o ex não dava conta do que estava acontecendo comigo. Só ficava repetindo que eu não era a mesma pessoa com quem ele se casou. Até que chegou a festa de Ano Novo. E essa noite foi esclarecedora. Num momento eu estava tão feliz, que subi na cadeira, para dançar e cantar. (Detalhe importante: eu não bebia álcool nessa época. Era tudo do meu cérebro mesmo). Passados alguns minutos, eu fiquei muito irritada, mas tão irritada, que comecei a xingar a Fergie (Black Eyed Peas), na TV. Ninguém estava entendendo nada. Logo depois fui ao banheiro, e comecei a chorar, desesperadamente, querendo muito morrer.

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Passei  o mês de Janeiro de 2007 na cama. Dormindo, chorando e comendo. Quando voltei à psiquiatra, ela disse: “Ah, você tem transtorno bipolar”. Aham. “Que porra é essa?”, pensei. Me orientou a tomar dois remédios que são usados tanto para crises epiléticas, quanto para estabilizador de humor, e um calmante. Li as bulas e surtei. “Não vou tomar remédios para quem tem convulsões e esse tarja preta”, decidi.Não tomei. Os surtos aumentaram. Minha crise depressiva só durou um mês, e a fase maníaca voltou, pior do que a primeira.

Estava na fase final da faculdade, último ano. Fase de preparar a monografia. Trabalhava numa clínica de estética próxima à faculdade. Estava de cabeça na militância da universidade e do meu curso. Meu casamento estava chegando ao fim. Viajei com o movimento estudantil. Ainda não fumava nada, não bebia. Mas andava com colegas que usavam de tudo nessa época. Álcool, cigarro, maconha, cocaína, remédios controlados. Não me importava de ficar com eles, mesmo sem usar nada. Mas ficava impressionada de como eu estava sentindo o mesmo que eles, só com as químicas do meu cérebro (acredito que isso me impediu de experimentar as coisas, porque se eu já estava como eles sem nada, imagine se usasse algo. Quem iria cuidar de mim?).

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Me sentia absurdamente bem, confiante e inteligente. Conversava sobre tudo. Peguei matérias eletivas nos cursos de Psicologia, Filosofia e Pedagogia. Comecei a beber vinho (barato/doce) e em seguida, cerveja. Trabalhava, fazia essas matérias durante o dia, a tarde e a noite, bebia nos intervalos. Me sentia no controle de tudo. Eu podia fazer tudo ao mesmo tempo. “Nossa, como sou inteligente! Converso sobre todos os assuntos com a galera de outras faculdades”. Comecei a virar a noite em balada. Já fui virada para o curso de licenciatura no sábado. Quando vinha a calmaria e o sono, um vazio absurdo.

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Cheguei num ponto de desespero. Fui a outro psiquiatra. Me receitou os mesmos anti-convulsionantes que a outra psiquiatra tinha receitado. Comecei a tomar. Não sentia efeito nenhum. Meu ex marido e eu decidimos apenas terminar o contrato do aluguel, para depois nos separarmos. Apenas dividíamos aquela kitnete  minúscula. O ano se passou, peguei DP em várias matérias, tive que abandonar a militância do curso (pois tinham ameaçado tirar o emprego da minha mãe, na mesma universidade), estava completamente louca.

Chegou o ano de 2008. Ainda queria tentar salvar o meu casamento, mas o ex não se posicionava (“não fode nem sai de cima”. Esse tipo). Mandei ele embora. Morei sozinha por uns dois meses. Vida loka, faculdade, final de curso. Só faltava a monografia final. Surtei. Foi feio. Liguei para os meus pais, e voltei a morar com eles. Soubemos de um psiquiatra muito bom, que cuidava de uns parentes, e fomos até ele. Eu estava no limite. Cansada. Doida. Surtada. Abri o jogo com ele. E ele me receitou aquela “fórmula mágica” de 7 remédios, entre antidepressivo, ansiolítico, calmantes, antipsicótico e estabilizador de humor. Dormi por uma semana. Acordava para comer (uma vez por dia) e ir ao banheiro. Pela primeira vez, meu irmão se assustou, e viu que meu problema era sério. Minha mãe, foi e ainda é meu porto seguro. Mesmo tendo que cuidar da condição do meu pai, estava pronta para me apoiar naquele momento.

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Ainda estava na fase maníaca, o que para mim foi importantíssimo nesse período. Escrevendo a minha monografia, as ideias fluíam tão lindamente, que meus dedos não acompanhavam minha mente. A monografia ficou tão incrível, que além do “10 com louvor”, foi referência na faculdade por dois anos, e ainda recebi um convite para publicar no fim de 2008. A medicação estava fazendo efeito, encontrei uma nova terapeuta, e a vida estava tomando um rumo melhor.

Até conhecer a vodka rs. Comecei a fumar em Julho/Agosto de 2008 e a beber muito. Mas daqui para frente, fica para outro post.

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Foi assim que descobri o meu transtorno e como tentei lidar nos primeiros anos.

Disso, tiro que a fase maníaca é incrível para produção e a sensação de onipotência. Sinto falta dessa mania ‘hardcore’. Mas o surto e o vazio que vinham depois, eu não suportava. Não escrevo ou penso como nessa época, e fico muito triste com isso. Mas é melhor não andar por aí feito doida, sem pesar as consequências, machucando os outros e, principalmente me autodestruindo.

Ufa! Seguimos.

Bipolaridade + TPM (escrito em 24/09/2010)

TPM (tensão pré-menstrual) = apesar de alguns sexistas e até algumas mulheres desinformadas dizerem que tpm é frescura de mulher que não transa há muito tempo, a tensão pré-menstrual é bem real e explicada cientificamente.

 

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“Oi, sou o seu útero. Tô aqui pra arruinar sua vida” “…” “…”

“…” “Terminei” “Brincadeira!”

Durante a produção de hormônios que se preparam para liberar, através da menstruação, os óvulos que não foram fecundados, são produzidos menos neurotransmissores, como a serotonina, que é responsável pela sensação de prazer produzida pelo nosso cérebro e a dopamina, que nos dá disposição física. Esse é o principal motivo que faz as mulheres se sentirem tristes, desmotivadas, com a autoestima baixa. Além do sono em excesso, a ansiedade faz com que as mulheres com tpm se descontrolem emocionalmente e, dependendo dos problemas psíquicos de cada uma, esses sintomas se intensificam. Uma professora de yoga me disse uma vez que a tpm não é uma causa isolada do problema, ela na verdade catalisa e intensifica aquilo que a mulher já está sentindo. Se ela está ansiosa, a tpm aumenta essa ansiedade; se está depressiva, fica mais ainda; e assim por diante.

Alguns alimentos e exercícios físicos podem aliviar bastante a tpm. Os alimentos podem amenizar cólicas, vontade de chorar, apetite descontrolado e até nervosismo, enquanto caminhada e algumas posturas de yoga aliviam a ansiedade, estabilizam o sono e diminuem as dores musculares durante a menstruação. Vale a pena tentar!

 

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Mas você já imaginou TUDO ISSO associado ao transtorno bipolar? É realmente um exagero. Escrevi algumas palavras sobre esses dias (contando que estou em ÓTIMOS dias, de verdade, estou bem mesmo…)

‘Ai, que dias tristes. Literalmente tristes. Acordo tão triste, tão triste, que quero logo sair da cama pra não continuar com essa sensação.

 

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Faz 1 mês que mudou a medicação. Já passei pela euforia, irritação intensa, e nas 2 últimas semanas, tristeza, solidão. (Meu marido acabou de ver o título desse texto e disse: “olha o título, que medo! Corram para as colinas! Corram e não olhem para trás!” huahauhauha É, ele sabe que é tenso, como sabe! Meu herói!!! ♥)

Mas toda essa tristeza, eu acredito que veio por causa da TPM. Lógico que a tpm não é um evento isolado, uma doença, é na verdade um catalisador daquilo que já está acontecendo com o emocional. Como troquei de remédio há menos de 1 mês, e meu cérebro ainda não se acostumou com a ideia, já viu, né, socorro!

 

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Bom, queria achar algo (científico) sobre tpm e bipolaridade, porque é fato que a tpm atrapalha a movimentação dos neurotransmissores, que dão aquela sensação de prazer e alegria no cérebro, então imagino que, unida à bipolaridade, intensifica os sintomas, certo?

Mas não achei nada ainda. Na internet, só achei zoação de moleques que sofrem com suas namoradas patys desocupadas.

Aaaaaaaaaaaaai, espero não acordar amanhã com essa tristeza, essa baixa autoestima e essa falta de vontade de tudo. Só quero um pouquinho de equilíbrio, é muito?

Nem tá assim tão intenso, mas tá muito ruim. Queria deixar registrado aqui, porque quem sofre desse transtorno ou tem alguém perto com esse problema, pode prestar mais atenção e tomar alguns cuidados, pra que seja um momento menos tenso dentro de toda essa realidade.

Queridas, força!!!

Queridos, coragem! Não desistam de apoiar suas companheiras!’